
WMSI: o índice de motilidade segmentar e por que ele usa 16 segmentos
Neste artigo
A fração de ejeção descreve a função global do ventrículo esquerdo, mas é insuficiente quando o problema é regional: uma parede acinética por infarto pode coexistir com uma FE quase normal se o resto do miocárdio compensa. Para quantificar a contratilidade segmento a segmento, o ecocardiograma usa o WMSI (Wall Motion Score Index, ou índice de motilidade segmentar): cada segmento do VE recebe um escore de motilidade e o índice é a média desses escores. Ele é definido pela diretriz de quantificação de câmaras da American Society of Echocardiography e da European Association of Cardiovascular Imaging (Lang et al., 2015)1 e está ancorado no modelo de segmentação padronizado pela AHA (Cerqueira et al., 2002)2.
Este artigo cobre o que importa na prática: como o índice é calculado, por que a motilidade usa 16 segmentos e não 17, como funciona a escala de pontuação, e o que o número realmente prediz.
Nota editorial: Os valores e limiares citados aqui servem para contextualizar a discussão clínica. Para a aplicação exata, consulte sempre o texto original das diretrizes, pois a interpretação depende da qualidade das janelas, do contexto clínico (isquemia, miocardiopatia, valvopatia) e da anatomia coronária individual.
O que é o WMSI e como se calcula
O cálculo é simples e determinístico: atribui-se um escore de motilidade a cada segmento visualizado e divide-se a soma dos escores pelo número de segmentos avaliados.1 Segmentos mal visualizados ficam de fora do numerador e do denominador: não se “chuta” um valor.
Um ventrículo totalmente normal tem todos os segmentos pontuados em 1, e portanto WMSI = 1,0. Quanto maior o índice, mais extensa e/ou mais grave é a alteração contrátil. O WMSI tem boa correlação com a fração de ejeção medida por ressonância magnética (Tabela 1).
| WMSI | FE aproximada |
|---|---|
| 1,0 | ~64% (normocinético) |
| 2,0 | ~38% |
| 3,0 | ~12% |
Por ser uma média, o WMSI tem uma propriedade importante: o denominador (quantos segmentos entram na conta) muda o resultado. É exatamente por isso que o número de segmentos não é um detalhe.
16 ou 17 segmentos? A distinção que muda a conta
O modelo de segmentação mais conhecido é o de 17 segmentos da AHA (Cerqueira 2002)2. Ele foi concebido para imagem de perfusão (cintilografia, ressonância, eco com contraste) e inclui um 17º segmento: o ápice verdadeiro, ou apical cap, a pontinha de miocárdio que fica além do fim da cavidade do VE. A própria diretriz de quantificação de câmaras, ao reproduzir esse modelo, é explícita ao excluir o ápice da motilidade e do strain regional: “When using this 17-segment model to assess wall motion or regional strain, the 17th segment (the apical cap) should not be included”1.
O detalhe que costuma escapar é que para motilidade parietal o padrão não é 17, é 16 segmentos. A diretriz de quantificação de câmaras é explícita: “the 16-segment model is recommended for routine studies assessing wall motion, because endocardial excursion and thickening of the tip of the apex are imperceptible”1. Em português direto: como o ápice verdadeiro não tem cavidade por baixo, ele praticamente não se mexe: não há excursão endocárdica nem espessamento mensurável. Pontuar esse segmento como “normal” (que é o que quase sempre acontece) dilui o índice.
O efeito é concreto. Imagine um infarto anterior extenso (território da descendente anterior, que inclui o ápice). Se o WMSI é calculado sobre 16 segmentos, o número reflete a gravidade real; se for diluído por um 17º segmento sempre “normal”, ele cai artificialmente e, perto de um ponto de corte de risco, isso pode rebaixar a classificação e subestimar a gravidade justamente no paciente que mais importa.
Os 16 segmentos se distribuem em três anéis no diagrama em alvo (bull’s-eye):
- Basal (6 segmentos) e médio (6 segmentos): anterior, anterosseptal, inferosseptal, inferior, inferolateral e anterolateral.
- Apical (4 segmentos): anterior, septal, inferior e lateral.
E cada segmento é convencionalmente associado a um território coronário (Tabela 2).
| Território coronário | Segmentos |
|---|---|
| Descendente anterior (DA) | 1, 2, 7, 8, 13, 14 |
| Coronária direita (CD) | 3, 4, 9, 10, 15 |
| Circunflexa (Cx) | 5, 6, 11, 12, 16 |
O ápice verdadeiro (o 17º segmento da nomenclatura anatômica) continua existindo como referência descritiva (é legítimo descrever uma acinesia ou um aneurisma apical em palavras), mas ele não entra no cálculo do índice de motilidade.
A escala de pontuação por segmento
Cada segmento recebe um escore inteiro. A escala clássica, cuja origem está nas recomendações de quantificação do VE da ASE (Schiller et al., 1989)3, tem cinco graus (Tabela 3).
| Escore | Motilidade |
|---|---|
| 1 | Normal (ou hipercinético) |
| 2 | Hipocinético |
| 3 | Acinético |
| 4 | Discinético |
| 5 | Aneurismático |
Aqui há uma nuance que vale conhecer. A diretriz de quantificação de câmaras de 2015 consolidou a escala em quatro graus, classificando o aneurisma como discinético (4) e deixando de atribuir um escore próprio para ele.1 Já as diretrizes de eco de estresse (Pellikka et al., 2020)4 e de padronização do laudo da ASE (Taub et al., 2025)5 mantêm deliberadamente o quinto grau (o aneurismático, com deformação diastólica), por suas implicações prognósticas e terapêuticas. Ou seja: usar a escala de 5 pontos não é um erro; é o padrão dos documentos de laudo e de estresse, e preserva a informação clínica de que aquele segmento é um aneurisma, não apenas uma discinesia.
O que o WMSI prediz: do número ao prognóstico
Vale separar com clareza dois usos do WMSI, porque eles costumam ser confundidos.
1. Como descritor. A diretriz de quantificação define o método e ancora WMSI = 1,0 como normal, mas não publica faixas oficiais de “leve / moderado / grave”. Em um laudo de repouso, a leitura honesta é binária com gradação qualitativa: WMSI = 1,0 indica contratilidade segmentar preservada; WMSI > 1,0 indica alteração segmentar, tão mais relevante quanto maior o número e quanto mais segmentos envolvidos.
2. Como marcador prognóstico. Os pontos de corte numéricos vêm de estudos de desfecho, não da diretriz de quantificação, e dependem do contexto:
- No pós-infarto, o WMSI é preditor independente de mortalidade e de insuficiência cardíaca e, em vários estudos, superior à fração de ejeção. No trabalho de referência (Møller et al., 2006), com 767 pacientes, cada aumento de 0,2 unidade no WMSI elevou o risco de óbito de forma independente.6 Importante: esse estudo tratou o WMSI como variável contínua, não como um corte fixo.
- O número > 1,7 que circula como “alto risco” tem origem específica na literatura de eco de estresse: um WMSI de pico acima de 1,7 (combinado com FE ≤ 45%) identifica pacientes de alto risco (Marwick et al., 2003)7, e a diretriz de estresse reafirma essa faixa.4 Em coortes de repouso pós-IAM, o corte mais citado tende a ser ≥ 1,8.
A lição prática: o WMSI é um número com significado, mas o corte depende de você saber se está olhando para um eco de repouso ou de estresse, e para qual população.
Limites e armadilhas
- O território coronário é uma convenção, não um mapa fixo. A correspondência segmento → artéria é a distribuição típica; a anatomia individual varia, especialmente no ápice e nos segmentos de fronteira. O WMSI sugere o território provável, não o confirma.
- O índice resume, não substitui a leitura. Dois ventrículos com o mesmo WMSI podem ter padrões muito diferentes (um segmento aneurismático vs. vários hipocinéticos). O índice é um complemento da descrição segmentar, não um substituto dela.
- Encurtamento apical (foreshortening) e janelas ruins comprometem justamente os segmentos apicais: daí a regra de excluir do denominador o que não foi bem visualizado, em vez de presumir normalidade.
Para o papel do strain na avaliação da função regional e global, que complementa a leitura visual da motilidade, veja Strain no ecocardiograma: o que traz o consenso ASE/EACVI 2025.
O que isso significa para o laudo
Para o serviço que emite laudos, três pontos resumem a boa prática com o WMSI:
- Use 16 segmentos para motilidade. O modelo de 17 é para perfusão; aplicá-lo à motilidade dilui o índice e pode subestimar a gravidade em infartos anteriores.
- Seja explícito sobre a escala e o contexto do corte. Mantenha a escala de pontuação documentada e lembre que “alto risco > 1,7” vem do eco de estresse: não confunda com o eco de repouso.
- Trate o índice como complemento. O WMSI quantifica e padroniza, mas a descrição segmentar e o território provável continuam sendo a substância do laudo.
Manter o algoritmo alinhado à diretriz vigente é parte do que separa um laudo padronizado de um laudo desatualizado. Para avaliar se um sistema implementa esses critérios corretamente, leia Sistema para laudo de ecocardiograma: como escolher o melhor para sua clínica.
O que o Laudofy faz por você
Pontuar segmento por segmento e fechar a média à mão, no meio do exame, é onde o WMSI se perde na rotina. O que o sistema faz sozinho:
- Diagrama em alvo clicável. O bull’s-eye de 16 segmentos, com escore de 1 a 5 por segmento e o aneurismático preservado.
- Ápice fora do cálculo. O apical cap entra no diagrama como marcação neutra e não pesa na média, como recomendam Cerqueira 2002 e Lang 2015. É o que evita a diluição de um 17º segmento sempre normal.
- WMSI calculado e classificado. Normal, anormal ou alto risco, sem consultar tabela.
- Território coronário provável. Os segmentos alterados já saem agrupados por artéria.
- Validação na entrada. Apenas inteiros de 1 a 5, então nenhum valor impossível distorce a média.
- Texto determinístico. O corpo descreve o achado segmentar de forma qualitativa e a conclusão só ganha frase quando há alteração, sem número repetido.
O cuidado com o denominador é justamente o que passa batido no laudo manual, e é ele que separa um WMSI de 16 segmentos de um índice diluído.
Para o contexto mais amplo de como valores de referência sustentam um laudo confiável, veja Valores de referência no laudo de ecocardiograma: o que dizem as diretrizes.
Referências principais
- Lang RM, Badano LP, Mor-Avi V, et al. Recommendations for Cardiac Chamber Quantification by Echocardiography in Adults: An Update from the American Society of Echocardiography and the European Association of Cardiovascular Imaging. J Am Soc Echocardiogr. 2015;28(1):1-39.
- Cerqueira MD, Weissman NJ, Dilsizian V, et al. Standardized Myocardial Segmentation and Nomenclature for Tomographic Imaging of the Heart: A Statement for Healthcare Professionals from the Cardiac Imaging Committee of the Council on Clinical Cardiology of the American Heart Association. Circulation. 2002;105(4):539-542.
- Schiller NB, Shah PM, Crawford M, et al. Recommendations for Quantitation of the Left Ventricle by Two-Dimensional Echocardiography. American Society of Echocardiography. J Am Soc Echocardiogr. 1989;2(5):358-367.
- Pellikka PA, Arruda-Olson A, Chaudhry FA, et al. Guidelines for Performance, Interpretation, and Application of Stress Echocardiography in Ischemic Heart Disease: From the American Society of Echocardiography. J Am Soc Echocardiogr. 2020;33(1):1-41.
- Taub CC, Stainback RF, Abraham T, et al. Guidelines for the Standardization of Adult Echocardiography Reporting: From the American Society of Echocardiography. J Am Soc Echocardiogr. 2025;38(9):735-774.
- Møller JE, Hillis GS, Oh JK, Reeder GS, Gersh BJ, Pellikka PA. Wall motion score index and ejection fraction for risk stratification after acute myocardial infarction. Am Heart J. 2006;151(2):419-425.
- Marwick TH, Case C, Vasey C, et al. Practical applications in stress echocardiography: Risk stratification and prognosis in patients with known or suspected ischemic heart disease. J Am Coll Cardiol. 2003;42(6):1084-1090.
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