
Strain: o que traz o consenso ASE/EACVI 2025
Neste artigo
Em 2025, a American Society of Echocardiography (ASE), em colaboração com a European Association of Cardiovascular Imaging (EACVI), publicou o documento Clinical Applications of Strain Echocardiography: A Clinical Consensus Statement1. Ele é o sucessor do consenso ASE/EAE de 2011 sobre mecânica cardíaca2, que por mais de uma década foi a principal referência sobre strain.
A diferença de propósito entre os dois documentos é justamente o que há de mais novo. O consenso de 2011 era um texto de física e instrumentação: definia termos, métodos de medição e a metodologia do speckle tracking. O de 2025 muda o eixo para a utilidade clínica documentada: organiza-se em módulos por cenário de doença e diz, com base na evidência acumulada em milhares de publicações, onde o strain agrega valor diagnóstico e prognóstico e onde ainda não.
Este artigo resume o que mudou de 2011 para 2025, quais parâmetros de strain o consenso endossa (com seus valores de referência) e quais métodos ele explicitamente não indica para a prática clínica de rotina, entre eles o myocardial work.
Nota editorial: Os valores citados aqui servem para contextualizar a discussão clínica das recomendações. Para aplicação clínica exata, consulte sempre as tabelas originais do consenso ASE/EACVI 2025, pois os limiares dependem do fabricante e da versão do software, do método de medição e do sexo do paciente.
De 2011 a 2025: da física para a clínica
Além da mudança de foco, o documento traz uma seção dedicada às atualizações técnicas acumuladas desde 2011, fruto do trabalho da força-tarefa de padronização EACVI-ASE3. Os pontos mais relevantes para quem emite laudos:
- Convergência entre fabricantes. A variabilidade entre plataformas, que era o principal obstáculo ao uso clínico do strain, foi reduzida de forma significativa. O strain longitudinal global do VE passou a ser fortemente endossado como parâmetro complementar da função sistólica, embora o acompanhamento seriado ainda deva, idealmente, usar o mesmo fabricante e a mesma versão de software.
- Abordagem de parede média/total (midwall/full-wall). O consenso adota essa abordagem como método preferencial de medição, em vez de rastrear apenas a borda endocárdica.
- GLS medido no fim da sístole. Recomenda-se reportar o strain longitudinal global, por padrão, como o valor telessistólico (no fechamento da valva aórtica). Quando outro tempo é usado, isso precisa ser explicitado para evitar confusão.
- O sinal negativo. Para evitar ambiguidade, recomenda-se manter o sinal negativo ao apresentar valores de strain; quando ele é omitido, deve-se usar o termo “encurtamento longitudinal global”.
- Software dedicado. Para o ventrículo direito e os átrios, recomenda-se usar software específico daquela câmara, em vez de adaptar o software do VE, o que melhora a viabilidade e a reprodutibilidade.
Os parâmetros de deformação que o consenso endossa
O documento organiza as indicações em uma tabela única que classifica cada parâmetro como clinicamente endossado, pode ser apropriado ou ainda não endossado, por cenário clínico. Em síntese, três parâmetros concentram a evidência sólida:
| Parâmetro | Status no consenso 2025 | Principais aplicações |
|---|---|---|
| SLG do VE (LVGLS) | Endossado (mais amplo) | Insuficiência cardíaca, cardio-oncologia, isquemia, valvopatia, miocardiopatias |
| Strain da parede livre do VD (RVFWLS) | Endossado | Hipertensão pulmonar, insuficiência cardíaca, pós-Fallot, displasia arritmogênica |
| Strain de reservatório do AE (LASr) | Endossado (único parâmetro do AE) | Pressões de enchimento, ICFEp, fibrilação atrial |
| Dispersão mecânica do VE (LVMD) | Pode ser apropriado (nichos) | Risco arrítmico pós-infarto e em miocardiopatias |
| Myocardial work (LVMW) | Não endossado para rotina | Nenhuma |
SLG do ventrículo esquerdo: os valores de referência
O strain longitudinal global (SLG, ou LVGLS) é o parâmetro de strain mais consolidado. O consenso define a faixa de normalidade com graduação:
- Normal: mais negativo que −18%.
- Limítrofe: −16% a −18%.
- Anormal: menos negativo que −16% (limite inferior da normalidade derivado da meta-análise de Morris et al., 47 estudos e 23.208 adultos saudáveis).
O valor médio em indivíduos saudáveis é de cerca de −21% (desvio-padrão 2,6%), e o SLG tende a ficar menos negativo após os 60 anos. Um ponto prático importante: a faixa limítrofe (−16% a −18%) só deve ser interpretada como marcador de doença na presença de outra anormalidade ecocardiográfica; isoladamente, não caracteriza disfunção. O melhor uso do SLG é no acompanhamento seriado, em que uma variação relativa de 10% a 15% em relação ao basal já é considerada significativa.
Strain do ventrículo direito: parede livre e especificidade por sexo
O parâmetro endossado para o VD é o strain longitudinal da parede livre (RVFWLS), obtido na projeção apical focada no VD, mais acurada e com valores de maior magnitude do que a 4 câmaras convencional. O consenso adota limites inferiores da normalidade específicos por sexo: −20% em homens e −21% em mulheres; valores menos negativos que esses devem ser considerados patológicos. O strain global do VD de 6 segmentos (incluindo o septo) tem magnitude menor que o RVFWLS e não deve ser confundido com ele.
Para um panorama das demais novidades do coração direito (nova definição de hipertensão pulmonar, função diastólica do VD, acoplamento VD-AP e regurgitação tricúspide atriofuncional), veja Coração direito no ecocardiograma: o que muda com a diretriz ASE 2025.
Strain do átrio esquerdo: apenas o reservatório
A dinâmica do átrio esquerdo tem três fases (reservatório, conduto e contração), mas o consenso endossa apenas o strain de reservatório (LASr). Os valores de referência:
- Normal: aproximadamente 30% a 60% (média em torno de 39%).
- Limite inferior da normalidade: 23%; a faixa 23% a 30% é considerada limítrofe.
- Um LASr < 18% associa-se a pressões de enchimento elevadas do VE, papel já incorporado à avaliação da função diastólica.
O LASr tem valor reconhecido na predição de fibrilação atrial, no AVC criptogênico e na insuficiência cardíaca com fração de ejeção preservada (ICFEp).
Onde o strain ganhou papel clínico
A maior parte do documento descreve as aplicações por cenário. Em resumo:
- Insuficiência cardíaca: o SLG auxilia no estadiamento (estágios A e B), tem valor prognóstico na ICFEr e ajuda a identificar a ICFEp; padrões de bull’s eye (mapa polar) ajudam a sugerir a etiologia da hipertrofia, por exemplo, o padrão de preservação apical (“apical sparing”) típico da amiloidose cardíaca, ou os padrões da miocardiopatia hipertrófica e da Takotsubo.
- Cardio-oncologia: recomenda-se medir o SLG basal antes da quimioterapia; uma queda relativa ≥ 15% do SLG caracteriza cardiotoxicidade subclínica (disfunção relacionada à terapia do câncer), permitindo iniciar cardioproteção antes da queda da fração de ejeção.
- Doença isquêmica: o SLG e o strain segmentar ajudam na síndrome coronariana sem supra de ST, o encurtamento pós-sistólico marca isquemia, e o strain contribui na avaliação de viabilidade e na estratificação de risco após infarto.
- Valvopatias: na estenose aórtica importante assintomática, um SLG menos negativo que −14,7% associa-se a risco de morte 2,5 vezes maior; na regurgitação mitral primária, o SLG deveria ser supranormal, e valores menos negativos que −20% indicam pior prognóstico; há cortes análogos para regurgitação aórtica e tricúspide.
Os métodos que o consenso NÃO indica
Tão importante quanto saber o que usar é saber o que não incorporar à rotina. O consenso é explícito ao classificar vários métodos como ainda não endossados para uso clínico:
- Myocardial work (alça pressão-deformação / LVMW). É o exemplo mais citado. A técnica combina o strain com uma curva de pressão do VE estimada a partir da pressão arterial braquial para gerar índices de “trabalho miocárdico”. O consenso não a recomenda para uso clínico de rotina, pela falta de padronização, pela ausência de cortes confiáveis na presença de doença e pela sobreposição importante entre valores anormais e normais já publicados. Só pode ser apropriada em casos selecionados com pressão arterial muito alterada, como alternativa ao SLG. O myocardial work do VD, por sua vez, não pode ser recomendado no momento.
- Strain tridimensional (3D). Ainda em desenvolvimento; a menor resolução espacial e temporal e a variabilidade elevada fazem com que não seja indicado para uso de rotina. É apontado como direção futura promissora.
- Strain multicamadas (layer-specific). Não há argumento técnico que sustente a superioridade da análise de uma camada miocárdica específica sobre a deformação de parede total; não é endossado, e não é viável para o VD nem para os átrios. A abordagem de parede média/total permanece a preferida.
- Strain radial. Teve desempenho insatisfatório nos estudos entre fabricantes e não há evidência que sustente seu uso clínico; não é endossado.
- Strain do átrio direito (RA strain). Embora promissor, ainda carece de valores de referência consolidados e não é recomendado para a prática clínica.
- Dispersão mecânica (LVMD). Pode ser útil em nichos (como a estratificação de risco arrítmico após infarto e em algumas miocardiopatias), mas não é adequada para selecionar candidatos à ressincronização e não é endossada para uso de rotina; a dispersão mecânica de outras câmaras tampouco.
- Strain por inteligência artificial. Algoritmos automáticos podem ser usados, mas apenas após demonstrar concordância com os métodos existentes e obter aprovação regulatória.
O que isso significa para o laudo
Para o serviço que emite laudos de ecocardiograma, o consenso de 2025 dá um caminho claro: incorporar à rotina os três parâmetros endossados (SLG do VE, RVFWLS e LASr) com seus valores de referência atualizados, e resistir à tentação de reportar métricas ainda não validadas como se fossem definitivas. Na prática, isso significa reportar o SLG no fim da sístole, com o sinal negativo e a indicação do fabricante/versão; aplicar o limite inferior da normalidade específico por sexo no strain do VD; tratar a faixa limítrofe do SLG como sinal de alerta apenas no contexto de outras anormalidades; e privilegiar o acompanhamento seriado com a mesma plataforma.
Manter os valores de referência alinhados à diretriz vigente é parte do que separa um laudo padronizado de um laudo desatualizado. Para entender o papel dos valores de referência no laudo, veja Valores de referência no laudo de ecocardiograma: o que dizem as diretrizes. Para saber como avaliar se um sistema implementa esses critérios corretamente, leia Sistema para laudo de ecocardiograma: como escolher o melhor para sua clínica.
Referência principal
- Thomas JD, Edvardsen T, Abraham TP, et al. Clinical Applications of Strain Echocardiography: A Clinical Consensus Statement From the American Society of Echocardiography Developed in Collaboration With the European Association of Cardiovascular Imaging of the European Society of Cardiology. J Am Soc Echocardiogr. 2025;38(11):985-1020.
- Mor-Avi V, Lang RM, Badano LP, et al. Current and Evolving Echocardiographic Techniques for the Quantitative Evaluation of Cardiac Mechanics: ASE/EAE Consensus Statement on Methodology and Indications. J Am Soc Echocardiogr. 2011;24(3):277-313. (documento anterior)
- Voigt JU, Pedrizzetti G, Lysyansky P, et al. Definitions for a Common Standard for 2D Speckle Tracking Echocardiography: Consensus Document of the EACVI/ASE/Industry Task Force. J Am Soc Echocardiogr. 2015;28(2):183-193.
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