
Coração direito: o que muda com a diretriz ASE 2025
Neste artigo
Em março de 2025, a American Society of Echocardiography (ASE) publicou uma nova diretriz para a avaliação ecocardiográfica do coração direito no adulto, com ênfase especial na hipertensão pulmonar1. O documento substitui a diretriz de 20102, que por quinze anos foi a principal referência para padronização das medidas do átrio e do ventrículo direitos.
Este artigo não repete o conteúdo da diretriz anterior. O objetivo aqui é mostrar, de forma objetiva, o que mudou: as novidades, as atualizações de valores de referência e os conceitos que passaram a fazer parte da avaliação de rotina do coração direito.
Nota editorial: Os parâmetros citados aqui servem para contextualizar a discussão clínica das mudanças. Para aplicação clínica exata, consulte sempre a tabela original da diretriz ASE 2025, pois os limiares podem variar por metodologia de medição, sexo e método de indexação.
O gatilho de tudo: a nova definição de hipertensão pulmonar
A mudança que motivou a revisão não está no ecocardiograma em si, mas na definição hemodinâmica de hipertensão pulmonar (HP). O World Symposium on Pulmonary Hypertension reduziu o limiar de pressão arterial pulmonar média de ≥ 25 mmHg para > 20 mmHg, e passou a usar resistência vascular pulmonar > 2 unidades Wood (antes > 3) para caracterizar o componente pré-capilar.
Na prática, isso significa que pacientes com elevações discretas da pressão pulmonar, antes considerados normais, agora entram no espectro da doença. Como essas elevações discretas têm impacto prognóstico, o ecocardiograma ganhou um papel renovado na detecção precoce, no rastreamento e no acompanhamento longitudinal. Toda a diretriz de 2025 é organizada em torno dessa necessidade de identificar a doença mais cedo.
Valores de referência atualizados, com graduação de gravidade
A diretriz de 2010 fornecia, em grande parte, apenas o limite de normalidade para cada parâmetro do coração direito. A diretriz de 2025 traz uma tabela única de referência com graduação completa, normal, alteração discreta, moderada e importante, construída a partir de uma revisão de grandes coortes epidemiológicas.
Os destaques das atualizações:
- Átrio direito ganhou graduação própria de tamanho (dimensões, área e volume indexado), o que antes era pouco padronizado.
- Volumes 3D do átrio e do ventrículo direito passaram a ter valores normativos definidos.
- Diâmetros da via de saída do VD (VSVD) e da artéria pulmonar foram incorporados com seus respectivos cortes.
- A graduação permite ao laudo classificar o achado com a mesma terminologia padronizada já usada para o ventrículo esquerdo.
O átrio direito sobe para o relatório padrão
Historicamente “a câmara menos estudada”, o átrio direito (AD) passa a ter papel formal. A diretriz recomenda explicitamente incluir a área do AD e/ou o volume indexado por ASC no laudo de rotina, por seu valor no rastreamento e na estratificação de risco da HP; um aumento do AD reflete elevação crônica de pressões de enchimento e disfunção diastólica do VD.
O strain do átrio direito por speckle tracking aparece como ferramenta promissora para a função atrial, embora ainda limitado pela falta de valores de referência consolidados; portanto, ainda não recomendado para uso rotineiro.
Strain do ventrículo direito integrado à rotina
Uma das mudanças mais práticas: o strain longitudinal do VD deixa de ser apenas ferramenta de pesquisa e passa a ser recomendado como parte da avaliação padrão da função do VD, sobretudo na HP e em pacientes de risco. Ele detecta disfunção sistólica subclínica quando medidas convencionais (como o TAPSE) ainda estão normais.
A diretriz também padroniza a nomenclatura, que antes gerava confusão:
- RVGLS (global longitudinal strain): média dos seis segmentos (parede livre do VD e septo interventricular).
- RVFWS (free wall strain): média dos três segmentos da parede livre apenas; é a medida mais acurada da função do VD, sem a contribuição do VE.
Os valores normais ficam mais negativos que −20% a −25%, e um RVFWS pouco negativo (em torno de −13,5%) associa-se a maior mortalidade na hipertensão arterial pulmonar.
Função diastólica do VD: uma seção nova
A avaliação da função diastólica do ventrículo direito ganhou seção e tabela de graduação próprias (alteração do relaxamento, pseudonormal e restritivo), com base na relação E/A tricúspide, tempo de desaceleração, relação E/e’ e padrões de fluxo das veias hepáticas. É reconhecida como marcador precoce de doença subclínica, frequentemente alterada antes da dilatação ou hipertrofia do VD, algo que a diretriz anterior não estruturava.
Acoplamento VD–AP: o conceito da relação TAPSE/PSAP
Talvez o conceito mais novo seja o acoplamento ventrículo direito–artéria pulmonar (VD-AP), a capacidade do VD de responder ao aumento da pós-carga. A diretriz formaliza a relação TAPSE/PSAP como índice não invasivo desse acoplamento: divide-se um marcador de função longitudinal (TAPSE) por um marcador de pós-carga (pressão sistólica da artéria pulmonar).
Uma relação TAPSE/PSAP na faixa de 0,3–0,4 mm/mmHg indica “desacoplamento” e associa-se a maior risco de mortalidade. Índices semelhantes (FAC/PSAP, RVFWS/PSAP) também são citados como potencialmente superiores. É um conceito que praticamente não existia na rotina ecocardiográfica em 2010.
Regurgitação tricúspide: o reconhecimento da forma atrial funcional
Na avaliação da valva tricúspide, a diretriz consolida três mecanismos de regurgitação, em vez da divisão clássica primária versus funcional:
- Primária: anormalidade intrínseca dos folhetos (prolapso, endocardite, lesão por eletrodos, etc.).
- Funcional (FTR): secundária ao remodelamento do ventrículo direito, com tração dos folhetos.
- Atrial funcional (AFTR): entidade recém-reconhecida, decorrente do remodelamento do átrio direito e da dilatação do anel por fibrilação atrial de longa data, sem tração dos folhetos.
A distinção tem peso clínico: a AFTR é típica de pacientes idosos com fibrilação atrial crônica, tem prognóstico geralmente melhor que a FTR e pode regredir com a restauração do ritmo sinusal. A diretriz traz uma tabela dedicada às diferenças entre AFTR e FTR e recomenda que a etiologia seja descrita no laudo padronizado.
Sinais auxiliares e a probabilidade ecocardiográfica de HP
O rastreamento não se apoia em um único número. A diretriz reforça uma abordagem multiparamétrica: combina-se a velocidade máxima do jato de regurgitação tricúspide com sinais auxiliares de três grupos: os ventrículos (dilatação do VD, relação VD/VE, retificação do septo interventricular / VE em “D”, quantificada pelo LVEI), a artéria pulmonar (tempo de aceleração do VSVD, notching, diâmetro da AP) e a veia cava inferior e o átrio direito, para classificar a probabilidade de HP como baixa, intermediária ou alta. É essa combinação, e não a velocidade da regurgitação tricúspide isolada, que orienta a indicação de cateterismo.
Entre esses sinais, um dos mais úteis e subutilizados é o tempo de aceleração da via de saída do VD (TAP): valores > 105 ms são normais, enquanto um TAP ≤ 105 ms com entalhe mesossistólico (midsystolic notching) do fluxo pulmonar sugere especificamente HP pré-capilar, de resistência elevada. O TAP ainda permite estimar a pressão arterial pulmonar média de forma simples (PAPm ≈ 90 − 0,62 × TAP), sendo um complemento valioso quando o jato de regurgitação tricúspide é insuficiente para a estimativa convencional.
Pressão do átrio direito: um valor único, não uma faixa
Recomenda-se reportar a pressão do átrio direito (PAD) como um valor único (3, 8 ou 15 mmHg) em vez de faixas; como a PAD é somada à estimativa para o cálculo final da PSAP, um número fechado melhora a reprodutibilidade entre operadores.
Na estimativa da PAD a partir da veia cava inferior, quando o resultado é ambíguo (diâmetro normal mas sem colapsar, ou dilatada mas que colapsa), entram índices secundários para desempatar, entre eles o fluxo das veias hepáticas. A perda da predominância sistólica (relação S/D < 1, ou fração de enchimento sistólico < 55%) sinaliza PAD elevada, arredondando-se para 15 mmHg; na ausência desses sinais, arredonda-se para 3 mmHg.
Outras atualizações relevantes
- Artéria pulmonar: diâmetro da artéria pulmonar principal > 25 mm e/ou razão artéria pulmonar/aorta ≥ 1 passam a ser considerados anormais, com valor prognóstico na HP.
- Índice de excentricidade (LVEI): formalizado para distinguir sobrecarga de pressão (achatamento septal na sístole) de sobrecarga de volume (achatamento na diástole) do VD.
- Eco de estresse com exercício: a HP de esforço passa a ser definida por uma inclinação PAPm/DC > 3 mmHg/L/min; o estresse com bicicleta semirreclinada é recomendado para desmascarar HP subclínica e avaliar a reserva contrátil do VD.
- Derrame pericárdico: deve ser sempre descrito (presença/ausência, tamanho, localização e sinais de tamponamento). Na HP, um derrame moderado ou maior sinaliza doença avançada e pior prognóstico, e compõe escores de risco.
- Imagem multimodalidade: a diretriz posiciona a ressonância magnética cardíaca como padrão-ouro para volumes e função do VD, e descreve papéis emergentes da tomografia e do PET/FDG na investigação da HP.
O que isso significa para o laudo
Para o serviço que emite laudos de ecocardiograma, as mudanças apontam para um relatório do coração direito mais completo e estruturado: o átrio direito indexado por ASC, o strain do VD com nomenclatura correta, a função diastólica do VD graduada, a relação TAPSE/PSAP e a etiologia da regurgitação tricúspide deixam de ser opcionais e passam a compor a avaliação recomendada, especialmente no rastreamento e no acompanhamento de pacientes com ou em risco de hipertensão pulmonar.
Manter os valores de referência atualizados de acordo com a diretriz vigente é parte do que separa um laudo padronizado de um laudo desatualizado. Para entender o papel dos valores de referência no laudo, veja Valores de referência no laudo de ecocardiograma: o que dizem as diretrizes. Para saber como avaliar se um sistema implementa esses critérios corretamente, leia Sistema para laudo de ecocardiograma: como escolher o melhor para sua clínica.
Referência principal
- Mukherjee M, Rudski LG, Addetia K, et al. Guidelines for the Echocardiographic Assessment of the Right Heart in Adults and Special Considerations in Pulmonary Hypertension: Recommendations from the American Society of Echocardiography. J Am Soc Echocardiogr. 2025;38(3):141-186.
- Rudski LG, Lai WW, Afilalo J, et al. Guidelines for the Echocardiographic Assessment of the Right Heart in Adults. J Am Soc Echocardiogr. 2010;23(7):685-713. (diretriz substituída)
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