
Amiloidose cardíaca: critérios diagnósticos e red flags
Neste artigo
A amiloidose cardíaca acontece quando uma proteína anormalmente dobrada forma “fibrilas” chamadas amiloide e se deposita no coração. O coração fica mais rígido, com paredes aparentemente “espessas”, mas não por hipertrofia verdadeira: o aumento da espessura ocorre por deposição de proteína no espaço extracelular. Mais de 98% dos casos diagnosticados hoje são de dois tipos: amiloidose de cadeia leve de imunoglobulina (AL) ou de transtirretina (ATTR), esta última hereditária (ATTRv) ou adquirida do idoso (ATTRwt)1. Por muito tempo considerada rara, ela é reconhecidamente subdiagnosticada: aparece em parte dos casos de insuficiência cardíaca com fração de ejeção preservada e de estenose aórtica do idoso, sobretudo na variante paradoxal de baixo fluxo e baixo gradiente.
No fluxo de investigação, a ecocardiografia é a modalidade de primeira linha para levantar a suspeita2. É barata, disponível e o exame em que a doença costuma “aparecer” pela primeira vez, muitas vezes antes de qualquer hipótese clínica. Mas há um limite que organiza todo este artigo: o ecocardiograma sugere, ele não diagnostica. Nenhum achado isolado, e nenhuma combinação de achados, fecha o diagnóstico sem testes confirmatórios. E o eco tampouco distingue de forma confiável AL de ATTR, distinção que muda completamente o tratamento e o prognóstico.
Este artigo organiza os critérios ecocardiográficos em camadas: o gatilho de entrada (espessura parietal), os red flags morfológicos e funcionais, o papel real do apical sparing (com suas limitações, que são maiores do que a fama sugere) e, por fim, quando e como confirmar.
Nota editorial: os valores citados servem para contextualizar a discussão clínica. Para aplicação exata, consulte sempre as tabelas originais das diretrizes, pois os limiares de strain dependem do fabricante e da versão do software, do método de medição e do sexo do paciente.
Por onde a suspeita começa: espessura parietal e pseudo-hipertrofia
O ponto de partida universal na literatura é morfológico: espessura máxima de parede do ventrículo esquerdo (VE) maior ou igual a 12 mm associada a pelo menos um red flag1. Vale a precisão conceitual: os 12 mm são o critério de rastreio que dispara a busca por red flags, e não um red flag em si. A diretriz de cardiomiopatias da Sociedade Europeia de Cardiologia de 2023 incorpora essa lógica na sua abordagem “fenótipo-primeiro”, em que a hipertrofia inexplicada aciona a procura ativa de sinais de doença infiltrativa3.
O conceito-chave aqui é o de pseudo-hipertrofia. O espessamento parietal na amiloidose não decorre de hipertrofia dos miócitos, e sim da infiltração intersticial de amiloide. Daí o red flag mais característico de todos: a discrepância entre uma parede espessada ao eco e uma baixa voltagem do QRS ao ECG (o chamado voltage-mass mismatch)1. Em uma hipertrofia “verdadeira” (hipertensiva ou na miocardiopatia hipertrófica), espera-se voltagem preservada ou aumentada; quando a parede é espessa mas o ECG é de baixa voltagem, a infiltração entra forte no diferencial.
Um alerta de equidade que a própria literatura faz: o corte de 12 mm não é sexo-específico, e os valores normais de espessura são menores em mulheres. Aplicar o mesmo limiar para ambos os sexos tende a subdiagnosticar a doença na mulher, um trade-off assumido em nome da especificidade.
Os red flags morfológicos
No contexto de um VE espessado, os achados estruturais que compõem o fenótipo infiltrativo são12:
- Cavidade do VE pequena, não dilatada, com baixo volume sistólico. A amiloidose é uma cardiomiopatia restritiva, não dilatada; a “insuficiência cardíaca com VE não dilatado” é, por si só, um red flag cardíaco.
- Aumento biatrial. A combinação de infiltração atrial com pressões de enchimento cronicamente elevadas dilata os dois átrios.
- Espessamento da parede livre do ventrículo direito (VD). O acometimento biventricular é típico e ajuda a separar de causas que poupam o VD.
- Espessamento valvar e do septo interatrial.
- Derrame pericárdico (e, com frequência, derrame pleural associado).
- Textura miocárdica granular ou “sparkling”. Achado clássico, porém subjetivo e dependente do equipamento; útil quando presente, mas a sua ausência não afasta nada.
Nenhum desses achados é específico isoladamente. O valor está na conjunção: parede espessa e não dilatada somada a vários desses sinais ao mesmo tempo é o que muda a probabilidade pré-teste.
Função diastólica e átrio esquerdo
A disfunção diastólica é precoce e quase universal na doença estabelecida, progredindo para um padrão restritivo (relação E/A elevada, tempo de desaceleração curto) nas fases avançadas. Os parâmetros de suporte incluem E/e’ elevado (acima de 14) e, de forma característica, a redução das velocidades teciduais do anel mitral (e’) mesmo com parede espessa, outro descasamento que aponta para infiltração.
A mecânica atrial merece destaque próprio: o strain de reservatório do átrio esquerdo está comprometido cedo, refletindo tanto a infiltração atrial quanto as pressões de enchimento elevadas. Para o detalhamento desses parâmetros, vale rever Função diastólica no ecocardiograma: o que muda com a ASE 2025 e Strain do átrio esquerdo: o que recomenda o consenso EACVI/ASE.
Strain longitudinal e apical sparing: a fama e a realidade
Este é o achado mais associado à amiloidose, e também o mais mal compreendido. A infiltração reduz o strain longitudinal global (SLG) com um gradiente da base para o ápice: os segmentos basais e médios são desproporcionalmente acometidos enquanto o ápice é relativamente poupado. No mapa polar (bull’s eye), isso gera a imagem de “cherry on top”, o ápice vermelho preservado sobre uma base e um meio comprometidos. O conceito já aparece no consenso de strain como padrão sugestivo de etiologia da hipertrofia (veja Strain no ecocardiograma: o consenso ASE/EACVI 2025).
Existem três formas quantitativas de capturar esse padrão:
1. Razão de preservação apical relativa (RELAPS), de Phelan4:
O corte de anormalidade é maior que 1,0. Atenção à definição: não é “ápice maior que duas vezes a base”; o denominador soma base e meio.
2. Razão FE/SLG (EFSR), de Pagourelias5:
O corte é maior que 4,1. A lógica é elegante: como a infiltração derruba a deformação longitudinal antes de a fração de ejeção cair, uma FE preservada convivendo com um SLG muito reduzido produz uma razão alta. No estudo original, o EFSR foi o melhor discriminador isolado, com área sob a curva de 0,95.
3. Razão ápice/base septal (SAB)6: a razão entre o strain septal apical e o septal basal na janela apical 4 câmaras, com corte maior que 2,1.
Por que esses cortes pedem cautela
O estudo original de Phelan (2012) reportou, para a RELAPS maior que 1,0, sensibilidade de 93% e especificidade de 82%4. Esse número virou folclore. O problema é que ele não se reproduz na vida real:
| Fonte | Cortes | Sensibilidade | Especificidade |
|---|---|---|---|
| Phelan 2012 (estudo original) | RELAPS > 1,0 | 93% | 82% |
| Meta-análise Open Heart 2025 (41 estudos) | agrupado | 65,9% | 83,1% |
| Meta-análise EHJ-CVI 2024 (20 estudos) | qualquer | 67% | 85% |
A especificidade resiste, mas a sensibilidade real fica na casa dos 66% a 67%78. Três limitações práticas pesam ainda mais:
- Forte dependência da plataforma. O padrão não transfere entre fabricantes: na meta-análise Open Heart, a sensibilidade variou de cerca de 70% no GE EchoPAC a apenas 31% no TomTec7. Um corte calibrado em um software não vale automaticamente em outro.
- Valor preditivo positivo baixo em população não selecionada. Em ecos consecutivos de rotina, entre os pacientes que apresentavam o padrão de apical sparing, apenas cerca de 27% a 33% tinham amiloidose confirmada7. O padrão também ocorre em miocardiopatia hipertrófica, doença de Fabry, cardiopatia hipertensiva, estenose aórtica grave e doença renal crônica.
- A ausência não exclui. Em uma coorte de amiloidose AL, a RELAPS maior ou igual a 1,0 esteve presente em apenas 17,5% dos casos (sensibilidade de 17,5%)9. Não ver apical sparing não afasta a doença, sobretudo na AL.
A consequência prática é direta: usar razões de strain aumenta a especificidade ao custo de sensibilidade6, e o apical sparing deve ser tratado como ferramenta de triagem que motiva o teste confirmatório, não como teste diagnóstico. Entre os três métodos, o EFSR tem a vantagem de ser calculável a partir de dados que o laudo já contém (FEVE e SLG), sem exigir software de strain regional.
AL versus ATTR: o eco não distingue
Este ponto é frequentemente esquecido: os achados ecocardiográficos não separam de forma confiável AL de ATTR. A diferenciação definitiva exige cintilografia óssea e a pesquisa de proteína monoclonal. Por isso a recomendação da British Society of Echocardiography é não comentar o subtipo no laudo, e sim relatar apenas a probabilidade de amiloidose10. Marcadores de deformação do VD e do átrio esquerdo chegam a superar o apical sparing isolado para sugerir acometimento na AL9, mas nada disso substitui a confirmação.
Quando investigar e como confirmar
A regra prática: diante de espessamento parietal inexplicado (maior ou igual a 12 mm) com red flags, encaminhar para confirmação. Os red flags que sustentam o encaminhamento vão além do eco1:
- Ecocardiográficos: apical sparing do SLG, parede do VD espessada, valvas e septo interatrial espessados, derrame pericárdico, cavidade pequena com baixo volume sistólico, estenose aórtica paradoxal de baixo fluxo e baixo gradiente, aumento biatrial.
- Eletrocardiográficos: baixa voltagem do QRS desproporcional à espessura do VE, padrão de pseudo-infarto, distúrbio de condução atrioventricular.
- Clínicos e extracardíacos: síndrome do túnel do carpo bilateral, ruptura espontânea do tendão do bíceps, estenose do canal lombar, polineuropatia periférica, disautonomia, e biomarcadores cardíacos persistentemente elevados.
O caminho de confirmação combina dois eixos2:
- Pesquisa de proteína monoclonal: cadeias leves livres no soro mais imunofixação sérica e urinária. A combinação dos três exames tem sensibilidade próxima de 99% para detectar a discrasia plasmocitária, e é o passo que não pode ser pulado, pois é o que sinaliza a possibilidade de AL.
- Cintilografia óssea com traçador (Tc-99m-PYP, DPD ou HMDP), graduada visualmente pela escala de Perugini (0 a 3) conforme a captação cardíaca comparada à óssea.
O resultado combinado fecha o raciocínio. O critério não invasivo de ATTR, de Gillmore, é o pilar moderno: captação cintilográfica grau 2 ou 3 na ausência de proteína monoclonal dispensa a biópsia, com especificidade e valor preditivo positivo de 100%11. Em contrapartida, se houver proteína monoclonal (cintilografia positiva ou não), a biópsia com tipificação torna-se necessária para excluir ou confirmar AL. A diretriz europeia de 2023 reforça esse algoritmo e recomenda ressonância magnética cardíaca na avaliação inicial de todo paciente com cardiomiopatia3.
O que isso significa para o laudo
Para quem emite laudos, a amiloidose é o exemplo perfeito de achado que emerge do cruzamento de medidas, não de um número isolado. Parede espessa, cavidade não dilatada, aumento atrial, disfunção diastólica e SLG reduzido com fração de ejeção preservada, quando aparecem juntos, desenham um padrão que merece uma linha de atenção no laudo, sempre como sugestão de investigação, jamais como diagnóstico.
É exatamente o tipo de raciocínio que um sistema de laudo estruturado pode apoiar: cruzar automaticamente os achados de um exame e, quando o conjunto for compatível, sinalizar o padrão e orientar a confirmação adequada (cadeias leves e cintilografia), sem nunca afirmar o que só os testes confirmatórios podem afirmar. Manter os valores de referência e os red flags alinhados às diretrizes vigentes é o que separa um laudo padronizado de um laudo desatualizado; sobre isso, veja Valores de referência no laudo de ecocardiograma e Sistema para laudo de ecocardiograma: como escolher.
Referências
- Garcia-Pavia P, Rapezzi C, Adler Y, et al. Diagnosis and treatment of cardiac amyloidosis: a position statement of the ESC Working Group on Myocardial and Pericardial Diseases. Eur Heart J. 2021;42(16):1554-1568.
- Dorbala S, Ando Y, Bokhari S, et al. ASNC/AHA/ASE/EANM/HFSA/ISA/SCMR/SNMMI Expert Consensus Recommendations for Multimodality Imaging in Cardiac Amyloidosis: Part 1 and Part 2. J Nucl Cardiol. 2019;26(6):2065-2123; republicado em Circ Cardiovasc Imaging. 2021;14:e000029.
- Arbelo E, Protonotarios A, Gimeno JR, et al. 2023 ESC Guidelines for the management of cardiomyopathies. Eur Heart J. 2023;44(37):3503-3626.
- Phelan D, Collier P, Thavendiranathan P, et al. Relative apical sparing of longitudinal strain using two-dimensional speckle-tracking echocardiography is both sensitive and specific for the diagnosis of cardiac amyloidosis. Heart. 2012;98(19):1442-1448.
- Pagourelias ED, Mirea O, Duchenne J, et al. Echo Parameters for Differential Diagnosis in Cardiac Amyloidosis: A Head-to-Head Comparison of Deformation and Nondeformation Parameters. Circ Cardiovasc Imaging. 2017;10(3):e005588.
- Kyrouac D, Schiffer W, Lennep B, et al. Echocardiographic and clinical predictors of cardiac amyloidosis: limitations of apical sparing. ESC Heart Fail. 2022;9(1):385-397.
- Relative apical sparing of left ventricular longitudinal strain for diagnosing cardiac amyloidosis: a systematic review and meta-analysis. Open Heart. 2025.
- Sensitivity and specificity of the relative apical sparing pattern of global longitudinal strain for cardiac amyloidosis: a systematic review and meta-analysis. Eur Heart J Cardiovasc Imaging. 2024.
- Huang J, et al. Relative apical sparing is not a sensitive parameter for diagnosing light-chain cardiac amyloidosis. Quant Imaging Med Surg. 2024.
- Masani N, et al. British Society of Echocardiography guideline for the assessment of cardiac amyloidosis. Echo Res Pract. 2023.
- Gillmore JD, Maurer MS, Falk RH, et al. Nonbiopsy Diagnosis of Cardiac Transthyretin Amyloidosis. Circulation. 2016;133(24):2404-2412.
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