
Doença da aorta: o que muda com a diretriz ACC/AHA 2022
Neste artigo
A diretriz 2022 ACC/AHA Guideline for the Diagnosis and Management of Aortic Disease1 (copublicada na Circulation) é o primeiro documento conjunto do American College of Cardiology e da American Heart Association a reunir, em um único texto, toda a aorta torácica e abdominal. Ela substitui e unifica recomendações que antes estavam dispersas em diretrizes separadas, e redefine vários pontos que tocam diretamente o trabalho de quem faz ecocardiograma.
Este artigo resume o que mudou em relação às diretrizes anteriores e destaca os pontos mais relevantes para o ecocardiografista: como medir a raiz e a aorta ascendente de forma reprodutível, por que e como indexar os diâmetros (por superfície corporal e por altura), o que define crescimento patológico, os intervalos de vigilância e os limiares a partir dos quais o laudo deve sinalizar a necessidade de avaliação especializada.
Nota editorial: Os limiares citados aqui servem para contextualizar a discussão clínica das recomendações. Para a aplicação clínica exata, consulte sempre o texto original da diretriz ACC/AHA 2022, pois os valores dependem do segmento aórtico, da modalidade de imagem, da etiologia (esporádica, sindrômica, valva aórtica bicúspide) e do contexto individual de cada paciente.
O que mudou em relação às diretrizes anteriores
A diretriz de 2022 traz mudanças de conceito que vão além de ajustes de números:
- Documento único e abrangente. A aorta torácica e a abdominal passam a ser tratadas em um só guia, com uma nomenclatura padronizada de segmentos (sistema de zonas aórticas).
- Limiar cirúrgico reduzido em centros especializados. Para aneurismas esporádicos da raiz e da aorta ascendente, o limiar de intervenção foi reduzido de 5,5 cm para 5,0 cm em pacientes selecionados, quando a cirurgia é feita por cirurgiões experientes em uma Equipe Aórtica Multidisciplinar.
- Indexação ganha protagonismo. Em pacientes significativamente menores ou mais altos que a média, os limiares incorporam a indexação do diâmetro por superfície corporal ou por altura, ou a razão entre área de secção transversa da aorta e altura.
- Definição formal de crescimento rápido. Crescimento como indicação de intervenção foi definido objetivamente (ver adiante).
- Equipe Aórtica Multidisciplinar e volume institucional. A diretriz enfatiza o encaminhamento a centros de alto volume (pelo menos 30–40 procedimentos aórticos por ano).
- Genética e rastreamento familiar. Reforço do rastreamento de parentes de primeiro grau em aortopatias hereditárias.
- Decisão compartilhada. Especialmente relevante na gravidez e em diâmetros limítrofes.
Como medir a aorta no ecocardiograma
A diretriz dedica atenção especial à padronização da medida, porque decisões cirúrgicas são tomadas com base em milímetros, e a variabilidade de método é a maior fonte de erro.
Para o ecocardiograma transtorácico (ETT), o padrão consolidado é:
- Local: medir nos pontos segmentares (raiz da aorta [seios de Valsalva], junção sinotubular e aorta ascendente tubular proximal), sempre perpendicular ao eixo longo da aorta, e em qualquer local de anormalidade.
- Momento do ciclo: a raiz é medida em diástole final.
- Técnica no ETT: borda de ataque a borda de ataque (leading-edge to leading-edge), ou seja, da face externa da parede anterior até a face interna da parede posterior, que são as faces onde o feixe de ultrassom chega primeiro em cada parede, identificando o maior diâmetro. Há vasta base histórica de dados com esse método, que permitiu estabelecer limites normais ajustados para idade, sexo e tamanho corporal.
- Correspondência com TC/RM: na TC e na RM, a medida é feita borda interna a borda interna (inner-edge to inner-edge). A medida por borda de ataque no ETT tem boa correlação com a borda interna da TC/RM. A medida por borda interna a borda interna também pode ser considerada no ETT.
- Consistência é tudo: para vigilância seriada, o mesmo método de medida (por exemplo, seio-a-seio versus seio-a-comissura na TC/RM) deve ser mantido entre exames, e múltiplas medidas devem ser reportadas para evitar subestimar o tamanho real.
Vale uma nota de terminologia: a diretriz prefere “dilatada” a “ectásica” para descrever a aorta discretamente aumentada, justamente porque “ectasia” é usada de formas conflitantes entre serviços. Padronizar a palavra no laudo evita ambiguidade clínica.
Por que indexar (e por que não usar z-score em adultos)
Um diâmetro absoluto de 4,2 cm na raiz significa coisas muito diferentes em um homem de 1,90 m e em uma mulher de 1,55 m. Por isso a diretriz recomenda normalizar o tamanho da aorta pelo porte do paciente, sobretudo nos extremos de estatura.
Um ponto importante para o laudo de adulto: a diretriz afirma que o z-score não é tipicamente usado para reportar o grau de dilatação aórtica em adultos. As evidências de desfecho se baseiam em diâmetros e em índices simples, e há menos dados baseados em z-score. Além disso, a normalização por superfície corporal tem a limitação do peso, já que não se espera que a aorta cresça ou encolha com flutuações de peso. O z-score permanece relevante na população pediátrica.
A diretriz trabalha com três formas de indexação:
- Índice de Tamanho Aórtico (ASI): diâmetro (cm) ÷ superfície corporal (m²). Um ASI > 2,0 cm/m² é considerado anormal; é melhor preditor de eventos aórticos adversos do que o diâmetro isolado.2
- Índice de Altura Aórtica (AHI): diâmetro (cm) ÷ altura (m). Mostrou desempenho pelo menos equivalente ao ASI, com a vantagem de ser mais simples de calcular.3
- Razão área/altura: área de secção transversa da aorta (cm²) ÷ altura (m). Associada a risco de dissecção e óbito em pacientes com valva tricúspide ou bicúspide.4
O que define crescimento patológico
O ritmo de crescimento é, em si, um critério de intervenção, independentemente do diâmetro absoluto. A diretriz formaliza:
- Aneurismas esporádicos: crescimento ≥ 0,5 cm em 1 ano, ou ≥ 0,3 cm por ano em 2 anos consecutivos.
- Aortopatia hereditária ou valva aórtica bicúspide: crescimento ≥ 0,3 cm em 1 ano.
Como a taxa de crescimento aumenta com o tamanho da aorta, e a medida ecocardiográfica seriada é o instrumento mais acessível de acompanhamento, o laudo deve sempre que possível comparar com o exame anterior e explicitar a variação, não apenas o valor atual.
Vigilância: com que frequência reimagear
- Aneurisma recém-diagnosticado: repetir a imagem em 6 a 12 meses para estabelecer a taxa de crescimento; se estável, vigilância anual.
- Síndrome de Marfan: ecocardiograma de base e, se os diâmetros estiverem estáveis, ETT anual de vigilância (com reimagens mais frequentes diante de crescimento rápido ou diâmetro próximo do limiar cirúrgico).
A modalidade de acompanhamento deve cobrir o segmento de interesse: o ETT avalia bem a raiz e a porção proximal da ascendente, mas a aorta ascendente distal, o arco e a aorta descendente frequentemente exigem TC ou RM.
Limiares para sinalizar avaliação especializada
O ecocardiografista não indica cirurgia, mas o laudo é o gatilho do encaminhamento. A diretriz ACC/AHA 2022 não classifica a dilatação em discreta/moderada/importante, mas define limiares de decisão (intervenção, indexação e crescimento). A tabela abaixo os resume por cenário clínico:
| Cenário clínico | Diâmetro absoluto | Indexado (estatura nos extremos) | Crescimento |
|---|---|---|---|
| Aneurisma esporádico (raiz/ascendente) | ≥ 5,5 cm indicado · ≥ 5,0 cm razoável em centro experiente | área/altura ≥ 10 cm²/m · ASI ≥ 3,08 cm/m² · AHI ≥ 3,21 cm/m | ≥ 0,5 cm/ano ou ≥ 0,3 cm/ano em 2 anos |
| Esporádico + cirurgia valvar concomitante (valva tricúspide) | ≥ 4,5 cm (substituição concomitante razoável) | N/A | N/A |
| Síndrome de Marfan | ≥ 5,0 cm · ≥ 4,5 cm com fatores de risco | área/altura ≥ 10 cm²/m | ≥ 0,3 cm/ano |
| Valva aórtica bicúspide | ≥ 5,5 cm · 5,0–5,4 cm com fator de risco · ≥ 4,5 cm se já em cirurgia valvar | área/altura ≥ 10 cm²/m | ≥ 0,3 cm/ano |
Como ler a tabela: os limiares absolutos refletem recomendações de classe I (indicado) e IIa (razoável, em centro experiente com Equipe Aórtica Multidisciplinar). Os critérios indexados aplicam-se sobretudo a pacientes com estatura > 1 desvio-padrão acima ou abaixo da média. Como referência de normalidade, um ASI > 2,0 cm/m² é considerado anormal; o limite “normal” do diâmetro absoluto varia por idade, sexo e ASC (nomogramas), e não tem um corte único na diretriz.
Esses números reforçam por que um laudo que reporta apenas o diâmetro absoluto pode subestimar o risco em pacientes pequenos: sem os índices, uma aorta de 4,8 cm em uma paciente de 1,55 m pode não receber a sinalização que merece.
O que o laudo de eco deve trazer
Traduzindo a diretriz para o conteúdo prático do laudo:
- Diâmetros segmentares (raiz nos seios de Valsalva, junção sinotubular, ascendente proximal), medidos perpendicularmente ao eixo, em diástole, por borda de ataque.
- Os índices correspondentes: ASI (por ASC), AHI (por altura) e, quando aplicável, a razão área/altura.
- A comparação com exames anteriores, com a variação explicitada, quando houver estudo prévio.
- Terminologia padronizada (“dilatada”, e não “ectásica”), reproduzindo a classificação de forma consistente entre laudos.
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O Laudofy implementa, no módulo de doença da aorta, exatamente a lógica de indexação da diretriz ACC/AHA 2022: ao inserir os diâmetros, o sistema calcula automaticamente os índices por superfície corporal (ASI), por altura (AHI) e a razão área de secção transversa/altura, exibindo o diâmetro absoluto e os índices lado a lado.
Para entender como essa automação reduz tempo sem perder rigor, veja Como reduzir o tempo de laudo de ecocardiograma sem perder qualidade. E para o panorama geral dos valores de referência, leia Valores de referência no laudo de ecocardiograma.
Referências principais
- Isselbacher EM, Preventza O, Black JH 3rd, et al. 2022 ACC/AHA Guideline for the Diagnosis and Management of Aortic Disease. J Am Coll Cardiol. 2022;80:e223-e393 (copublicada na Circulation).
- Davies RR, et al. Aortic Size Index (ASI) e estratificação de risco de eventos aórticos. 2006.
- Zafar MA, et al. Aortic Height Index (AHI) como preditor de eventos adversos. 2018.
- Svensson LG, et al. Razão área de secção transversa da aorta / altura e desfechos. 2002 e atualizações subsequentes.
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